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sábado, 3 de agosto de 2013

A Gargalhada Cósmica (por: Nelson Job)



Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
Manoel de Barros


Há quem credite a alcunha de “grande autor” os pensadores trombados que nos fazem adestrar o olhar para o torpe do mundo. Nós, eivados dos mais belos transaberes, cultivamos outros devires...

O mundo ao redor: eis que as gargalhadas estão em extinção. Se, de um lado, controla-se o desejo, “não pode isso, mas pode aquilo”, por outro, influencia-se no que se deseja. O Homem, triste de desejos tolhidos e redirecionados, sorri amarelo nas redes sociais. Sabe-se que o Homem emerge da relação entre desejos, vetores com os mais desterritorializados devires, mas é devidamente territorializado pelas convenções sociais e morais. Porém, são essas convenções sociais e a ubiquidade do consumo, desvirtuaram esse desejo. Resta ao Homem nada mais que risos de soslaio quando as crianças teimam em lhe ensinar o mais nobre indício de criação de sentido da vida: o gargalhar.


Há muito que Spinoza e Bergson culminam suas obras com a alegria. O "príncipe dos filósofos" nos contempla com o conceito de que o aumento de potência, o bom encontro, o auto-amor da imanência, a Ética, são da ordem da alegria e o francês, por sua vez, diz que a alegria se dá ao apreendermos cada vez mais o virtual, ao nos relacionarmos intensivamente com o atemporal. Bergson ainda vai nos dizer que o riso denuncia a rigidez do sensório-motor, pura apreensão de virtual e que a humanidade precisa aprender a trocar o prazer pela alegria (ainda que isso não nos impeça da alegria do sexar).

Já Deleuze e Guattari, nos ensinam a rir com Kafka (a alegria das metamorfoses), Francis Bacon (a graça do corpo indo além) e Beckett (esplendor das circunvoluções mais inesperadas das palavras). Autores que recebem usualmente o rótulo de “pesados”, no entanto, nos convidam, nem tão sutilmente, para dançar nas forças vitais com a leveza de quem brinca, ainda que suas imagens criadas sejam intensas.

Esses europeus já fizeram a sua parte. Aqui, urge cultivar a alegria nas vorticidades brasileiras.

É conhecido o bom humor e calor humano dos trópicos. Ainda que esse bom humor seja relacionado a um riso triste que tenta esquecer a pobreza, almejamos aqui nos direcionar para outras peculiaridades. O Brasil possui heterogeneidades inéditas. A alegria que suscitamos aqui é oriunda da vertigem de emergir de uma inconstante sopa pré-biótica cósmica, vortex (epi)genético que goza dos mais múltiplos vetores: gens oriundos de todos os cantos do mundo se encontram no campo brasileiro, se estendendo para os gens anímicos da geografia e culturas mais heterogêneas, cadências rítmicas. O código genético se estende aos vivos inorgânicos traçando na acontecência  a plena alegria de gerar novidade. Essa novidade que possui rumo incerto, esse não saber que se estende ao limiares epistemontológicos, gera nas entranhas da terra a mais plena gargalhada cósmica. Gargalhada no sentido que nela, se perde o controle do corpo, chega-se a chorar, atravessado pelos devires mais vertiginosos: a festa das intensidades ou dança dos vetores instáveis da novidade. Os vortexes gargalham do/no/por puro devir. A graça de não se controlar a acontecência, a alegria de não saber o que virá, a vertigem de intuir a expansão epistemontológica!

Se os europeus nos ensinaram a rir dos devires que lá se anunciavam, as vortexidades brasileiras e pós-brasileiras conclamam às gargalhadas cósmicas, pois: até as leis da física podem mudar, gerando outro cosmos, alegria de instabilidade. Se, de um lado, o talento de Chaplin ainda convoca à hipocrisia em “Smile”, aqui se ensaiam, lentamente, algumas novidades pela Porta dos Fundos.



O problema do limiar do Caos: Christopher Nolan nos assustou com a triste gargalhada do seu Coringa, “o agente do Caos”. Vortex sombrio tão poderoso que coagulou do âmbito cinematográfico para suicidar seu ator e atirar dentro das salas de exibição. Aqui há um atropelo: o Coringa se nega a encarar o que é problemático na seriedade de um Batman. A gargalhada cósmica tem seus percalços, é preciso muita seriedade e esforço para se chegar até ela. Muitas vezes, a melancolia é seu prenúncio. Se o Coringa se aliena dessa seriedade, desse esforço, ele se dicotomiza saindo de um ego neurótico (por exemplo, um Batman) para se esvair em Caos. A gargalhada cósmica opera de outra forma: a imanência é o Caos, não se esconde dele, funde-se a ele, elo místico de um vortex spinozista-bergsoniano, ou seja, apreender a imanência, a divindade caótica, ainda que instável.

Gargalhar cosmicamente por apreender a pintura abstrata (seus sentidos antes ocultos), por abraçar (enquanto enlace amoroso), por simplesmente criar, emergindo outras estÉticas. A gargalhada cósmica é nosso conceito mais precioso. É uma obviedade que emerja em vortexes brasileiros, mas para, eticamente, ressoar no cosmos. Para tanto, é preciso se aliar aos conceitos, adquirir vorticidade, vibrar as energias. Sabemos que o controle, os a prioris e a previsão (mas não a intuição) são tristes. Assim, urge que, sem diques, sejamos atravessados por devires, por vortexes: que nosso mergulhar na acontecência suscite as mais estrondosas gargalhadas cósmicas!






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