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sábado, 17 de agosto de 2013

Pornoética?

Pornologia para Epistemontonautas


Foi mistério e segredo
E muito mais
Foi divino brinquedo
E muito mais
Se amar como dois animais
Alceu Valença

Estranho, mas o amor puro é tranquilo.
Waldo Vieira



Nelson Job


A Ontologia Onírica vem esmiuçando o preço a se pagar pela imanência e o preço que pagamos por minimizar a magia. Se o primeiro preço “pagamos” com prazer, o segundo não valheu a pena. A Inquisição e a mudança do estatuto ontológico da linguagem (passagem da palavra é a coisa para a palavra representa a coisa) estabeleceram um mundo dualista e mau resolvido sexualmente. A Igreja, com suas interpretações e “lapidações” da escolástica, criou um paradigma sexual culposo. A orgia das bruxas foi sendo trocada por sexo silencioso para os filhos ou pais não se ouvirem (ver “Histéricas Graças a Deus?”).

Existem resistências: a dita “revolução sexual”, o rock’n’roll, a abertura do Ocidente para a sacralidade do sexo de certo Oriente. Uma resistência peculiar é a pornografia, que é pouquíssimo problematizada. Aparecem algumas leituras psicanalíticas redundantes, algumas inserções antropológicas e sociológicas etc. A questão é: com o advento da popularização da internet, a pornografia se torna ubíqua. Pré-adolescentes tem acesso livre, moldando suas iniciações sexuais ao clichê boquete-penetração vaginal e depois, anal-ejaculação na boca ou em outra parte exterior do corpo, repetido ad infinitum pelas inúmeras cenas pornô online. Tanto se usa pornografia e tão pouco se fala. A hipocrisia diante da sexualidade, tão criticada na era pré revolução sexual, hoje se reinstala através da pornografia silenciosa: quase todos a utilizam, quase ninguém fala sobre; antes se escondia revistas pornô embaixo da cama, agora se assiste pornografia com fone de ouvido, escondida de todos. Comenta-se publicamente nas redes sociais da operação médica de alto risco recém feita até de como se odeia profundamente o vizinho funkeiro, mas pouco se fala do ícone ocasional do onanismo reincidente.

As bruxas possuíam uma liberdade sexual, ainda que muitas vezes degenerada (mais no sentido entrópico que moral), mas ao menos davam vazão aos seus desejos. Hoje, se pratica muito sexo pudico compensado por masturbações homéricas para as divas do pornô (bem como animais, máquinas etc: os filmes pornô possuem muitas “categorias”). O quê fazer diante dessa cisão desejante? Que fique claro: o problema aqui não é a disseminação crescente do pornô, nenhum juízo de moral nisso, mas a cisão entre o sexo que se pratica e o sexo que se fantasia, ainda que seja necessário explicitar o clichê pornográfico bem como sua predominância de fantasias masculinas levem a uma homogeneidade desnecessária à sexualidade contemporânea. Poucas atrizes pornô que se tornam diretoras conseguem prevalecer fantasias femininas em seus filmes, ainda que venha se constelando um movimento para filmes de sexo explícito mais românticos: DaneJones etc.

De um lado, algumas saídas vêm sendo discutidas (educação sexual nas escolas, abertura de diálogo entre os pais etc), de outro, (já ponderamos aqui que) a sexualidade é para além do genital, e isso é , digamos assim, "saudável" (ver “Sexar”). O cristianismo institucional ainda é um problema. O Vaticano vem dando sinais constantes de abertura, é possível (esperamos) que se permita o uso da camisinha em breve. Mas as igrejas evangélicas insistem e dar passos atrás nessa abertura.

O recente neocaretismo dos vampiros ultrarromânticos é um fenômeno que também merece uma reflexão (ver: “Redivivos?”). Se as “mocinhas” preferem vampiros milenares conservadores aos lobisomens jovens e selvagens, a pista é que o processo civilizatório é fatal, ou, no mínimo, mortificante? Diante disso, é preciso trazer selvageria ao convite à imanência de Spinoza: imanência entre civilização e animalidade, entre polidez e selvageria. Resumindo “Sexar”: não há tipologia sexual, há desejo. O norte da Ética do desejo: se produz um bom encontro para ambos (ou mais), se a imanência goza junto com você em uma cópula cósmica, genital ou não, então é uma prática sexual ética. Claro que as nuances dessa Ética devem ser exploradas para não degenerar em sexualidades tristes. Assim, a cisão desejante deve se reencontrar na imanência: as fantasias podem ser realizadas, apenas se atentem à Ética, e não a moral (“não pode isso, goze desse jeito e só”).

Porém, o problema da pornografia é mais abrangente: nas redes sociais, a estética é pornográfica, no sentido que o explícito e a ausência do privado tomam conta. O fato do Facebook vender informações de seus usuários para as empresas apenas é uma versão mais institucionalizada. Nas redes sociais se exibe a ressaca, o almoço chinfrim, a doença, a miséria, sobretudo, a miséria estÉtica. Outra cisão: o tímido do mundo exterior se torna o histriônico virtual (no sentido de cibernético).

Claro está os benefícios da internet (ver “Brasil-vortex”): o aumento quantitativo e de velocidade da troca de informação. Mas o tempo gasto diante dos computadores criaram personas cibernéticas que, muitas vezes, “virtualiza” de um lado, mas desvitaliza de outro. Pode, é claro, acontecer vivências autênticas no cyberespaço, mas também se otimiza a possibilidade de preguiças existenciais (não chamo de neurose, por que o termo  há muito se moralizou) cibernéticas. Dito isso, não há problema algum no sexo virtual, nem na masturbação. O problema está, mais uma vez, no método fechado, no clichê: as novas formas de relação e sexualidade não devem se tornar as únicas, apenas mais uma no rol infinito de possibilidades relacionais.

Já anunciamos por aqui que um feminar que se anuncia, emergindo uma Era do Conjugalismo. Se não deve se repetir as degenerações das bruxas medievais (que orbitavam em torno do prazer egóico e/ou reativo a uma moral cristã vigente), é preciso suscitar desejos amorais, perversamente (que não tem apenas um verso, quem sabe vários poemas eróticos) éticos. Não é uma questão de 50 tons de pseudo liberdade sexual, mas sim de um infinito espectro de autênticas conexões desejantes.

Cabe, então, a questão: é possível uma pornoética? Sim, se considerarmos a imanência entre o amor (ver: “Amarnifesto”) e a pornografia. Do contrário, a pornografia não afetiva, o sexo pelo sexo, leva cada vez mais a um niilismo sexual, bem típico da histeria, minimizando as potências afetivas do sexo. Mas se apreendemos que a sexualidade animal que emerge nas vortexologias humanas coexiste com o processo civilizatório e com o amor (Último tango em Paris: "a partir de agora seremos apenas rugidos"...), a questão das perversões só será patológica se não passa pelo crivo ético, o niilismo sexual só impera num cultivo de preguiça existencial (ver "O amor no(s) tempo(s) do caos").

Nossa época vem declinando do privado, porém o público deve ser, muitas vezes, questão de escolha. O momento político é beneficiado eticamente por certo declínio da vida privada; o que não quer dizer que tudo deva ser público, isso seria apenas uma medida excludente, empobrecedora. Se há algo de potente no público, é que devemos assumir nossos desejos a todo tempo, ainda que seja uma opção relevante praticá-los na alcova, à meia luz.






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