CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A estÉtica da Tempestade



Da Assimilação Onírica
Nelson Job


a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera.

Carlos Drummond de Andrade



A Ontologia Onírica é imanente a uma "clínica", é desnecessário pensar uma clínica dela, pois sua epistemontologia, sua pragmática, é clínica por si. Contudo, há uma ação que lhe é privilegiada: a assimilação onírica! Vejamos o que nos tem a dizer a grande filósofa onírica María Zambrano ("O Sonho Criador"):

"Os sonhos não são qualquer coisa a eliminar da vida da pessoa, um poço, um resíduo de vida. São manifestações instantâneas com unidade de sentido da história real da pessoa, do processo que a leva a integrar-se ou a destruir-se. Em vez de ser simplemente analisado, deve ser assimilado, o que é um verdadeiro desafio".

Jung ("Seminário sobre Sonhos de Crianças") também se reporta ao tema: "O sonho é, conforme sabem, um fenômeno natural. Não é fruto de uma intenção. (...) A dificuldade, entretanto, é como assimilamos esse acontecimento natural".

Ainda que ele não tenha desenvolvido um "método" de assimilação onírica - pois seu método é ainda interpretativo - Jung avizinha-se na postura onírica primordial de Zambrano: a assimilação. Tanto a filósofa como o agenciamento Kafka-Guattari vão se opor à questão da interpretação dos sonhos. Atividade menor, a interpretação racionaliza, estratifica, consome o sonho em sobrecodificações que remetem a potência onírica a um corpo falido de teorias que, por sua vez, aprisionam um devir em um assujeitamento: "o Ego sonha a partir dos meus pressupostos teóricos". Nada disso. Menos um "sujeito que sonha" e mais um vortex que agencia um sonho: o sonhar é um mergulho na infinita plasticidade cósmica. O sonhar é um exercício de cultivar devires, como quer um kafkaísmo: proliferar os sonhos.

Zambrano ("Os Sonhos e o Tempo") vai nos lembrar que dos sonhos "proveram toda a magia", toda a prática de magia. Sim, os vortexes, intempestivamente, estão assimilando os sonhos. O longo processo de assimilação onírica se deu pelo advento da magia, da filosofia, da ciência, da arte, da confluência de todos esses saberes. Nós assimilamos sonhos, é assim que vivemos. Urge agora apreendemos mais intensamente esse processo, com o intuito de desdobrá-lo, de assumir sua estética (alguns chamariam de "realismo modal"), de cultivar sua ética. Todas as relações entre Hermetismo, Giordano Bruno, a mecânica kepleriana e newtoniana já evidenciavam as claras (porém obscurecidas por uma História) relações intensas desses saberes, todos eles oníricos, em alguma instância.



Quando sonharmos com uma tempestade, urge entrarmos em devir-tempestade, é da Tempestade onírica que falamos, é nela que sonhamos e é ela que urge ser assimilada: a estÉtica da Tempestade! A Tempestade está vindo porque ela "é" devir, já com o ser em torpor, "ser" transmutado em devir. Para apreendermos a arte como um processo de assimilação onírica, cabe a advertência da filósofa da arte Anne Cauquelin ("No Ângulo dos Mundos Possíveis"): "Trata-se de pensar a obra não como resultado acabado de uma prática, e sim um processo, a obra-processo vindo então se opor à obra-objeto e substituí-la. (...) A obra é aberta, nunca concluída, indefinida em seu processo aleatório (ou definida por sua determinação), e consiste na sua própria não consistência". Giorgione avistou La Tempesta, foi o melhor que ele pode fazer, mas estamos todos gratos:



Ficheiro:Giorgione 019.jpg





O Homem Falocêntrico, alheio a Tempestade que lhe desnorteará, observa um devir-mulher, que, por sua vez, nos olha em um misto de placidez e advertência, um clamor de prudência, amamentando uma nova possibilidade de se lidar com a Tempestade,  atualizada com Turner, que mergulha na Tempestade, esta e mais outras vezes:




File:Joseph Mallord William Turner 081.jpg

"Snow Storm: Hannibal and his Army Crossing the Alps"






Estamos agora passando por ela, mas a racionalidade separatista, cultivadora do Ego, tentar sempre procurar abrigo, esse abrigo é o próprio Ego, enquanto ilusão de impermeabilidade. Qualquer ego é permeável, visto que habita uma imanência. Porém, os diques no devir fazem com que se crie a ilusão histórica da impermeabilidade do Ego, cultivada historicamente por longos infelizes agenciamentos: Parmênides-Descartes-Kant, mas também espelho-quarto-identidade . Porém, a Tempestade é inevitável, a questão não é procurar abrigo ou fundar uma civilização acovardada, mas é se lançar na Tempestade imanentemente, ou seja, "ser'' a Tempestade, assumir um devir, visto que ela dificulta qualquer frivolidade. Assim como no olho do furacão não se fere, há de se cultivar um devir-Tempestade de modo que ela não destrua, mas que nos movimentemos enquanto vortex, passando de um a outro em uma dança ética. Menos "lugar certo na hora certa" e mais intuir uma vorticidade para além do espaço-tempo, uma precisão da intempestividade, paradoxo sonhado pelo vortex!



É Pollock que nos evidencia as dimensões moleculares da Tempestade:


Lavender Mist
Number 1, 1950 (Lavender Mist)





A estÉtica da Tempestade nos (trans)forma: Pollock nos ensina a olhar "de dentro" da Tempestade, ainda que nunca houvesse, de fato, real diferença entre dentro e fora, a não ser em um contexto de gradação em ordens de grandezas. Tal estÉtica nos permite a plena assimilação dos sonhos: não mais um Ego impondo uma triste estética do abrigo, mas um vortex fractalizando o cosmos. Se o cosmos possui leis da física diferentes em seus confins, o vortex se desdobra assimilando novas leis em um limiar em que não se apreenda mais como "leis da física", mas como devires cósmicos, diferenças de funcionamento, operações múltiplas.


Ficheiro:Saci Perere por Marconi.jpg
Marconi


A estÉtica da Tempestade nos convida a suscitar em um devir-saci. "Sabia que dentro de cada vortex há um saci?", dizia a lenda, nada mais que um sonho ontológico "interpretado" como "lenda". Nosso devir-saci precisa "perder uma perna", essa perna é o Ego Impermeável. Abandonando essa "perna", adquire-se velocidade: ficamos mais aptos aos solavancos de variação da Tempestade, abrangemos nosso potencial de assimilação onírica,  e exercemos plenamente nossa vortexologia.

"Perder a perna" faz parte da transmutação inerente, imanente ao vortex. Isso implica que o belo, na estética da Tempestade, é provisório: o belo se instala não como um belo definitivo, mas como um belo que é uma Ética dados os vetores que compõem um dado vortex, ou seja, uma inspiração estética spinozista: o que é belo em uma dada auto-organização de forças pode parecer grotesco em uma estética anterior, por isso falamos em uma estÉtica, com conceitos de belos móveis, provisórios. Francis Bacon nos ensina a estÉtica da Tempestade, pois a transmutação dos corpos que ele evidencia pode parecer grotesco a uma estética desavisada, se cheia de diques no devir. Se os corpos talhados por Bacon usam guarda-chuva, não é para se proteger da Tempestade, ela bem sabe que ela é inevitável, trata-se apenas de uma fina ironia:



Images: Head III -1948

Study After Velazquez's Portrait of Pope Innocent X - 1953




Mas nossa "mitologia", nosso onirismo em devir transmuta, assim como transmuta os corpos de Bacon, pois existe o clamor de um devir-mulher: a Tempestade enquanto avanço do justo oposto do "definitivo". O então saci entra em uma nova "etapa", um devir-mulher da Tempestade (Storm): 

"Ororo Monroe"


Nada como uma mutante que se torna Tempestade, um "X" da questão, x-girl. Já dizia E. R. Dodds ("Os Gregos e o Irracional"): "É evidente que tais sonhos estão intimamente relacionados ao mito, do qual se tem falado, com razão, tratar-se do pensamento onírico de um povo, assim como o sonho seria o mito do indivíduo", diríamos: o mito de um vortex. Esse mito é o sonho do povo porvir: devir Tempestade. Não há mais possibilidade de abrigo: a economia, as religiões, o Estado, todas as manifestações tolas do Ego Impermeável da História, falharam. Apenas um ego permeável, ou melhor, um vortex, pode amar, pois amar é o verbo da Tempestade. Todos essas manifestações do Ego evitam o amor em sua potência maior: o caos da Tempestade, não caos temido, este é temido apenas pelo Ego, que se sente destacado, separado da Tempestade; que pode, a despeito de não ser temida por um vortex, trazer em seu seio uma  transcendência a posteriori. Já o vortex faz parte do caos, da Tempestade, se assimilou a ela como se assimila os sonhos. A realidade não está mais domesticada, ela "é" Tempestade. A realidade epistemontologiza os sonhos, os mitos, as ficções, os deuses. Assimilemos os sonhos e habitemos a estÉtica da Tempestade, pois ela está aqui.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Grupo de Estudos: Janeiro de 2013

A seguir, os tópicos do Grupo de Estudos em janeiro de 2013:


Foto: Nenhum movimento. Apenas uma ilusão de ótica...
Este fractal é uma imagem estática, mas não adianta resistir: é uma armadilha para que seus olhos e seu cérebro dimensionem uma ilusão de movimento...

Da série "figuras impossíveis em sua forma pura"...

Veja também:
http://semioticas1.blogspot.com.br/2012/07/crianca-e-design.html
.


10/01 - Leitura comentada do conto "O Colapso (Crack-up)" de F. S. Fitzgerald.

17 e 24/01 - O conceito de devir: do devir sem suporte de Henri Bergson, passando pelo devir contra-natureza de Deleuze & Guattari e chegando em um devir selvagem.

31/01 - As novas intuições acerca do caos: de como o kaos grego chega a ciência no século XX e é retomado pela filosofia. Uma crítica a essa retomada nos faz conceber transaberes que passam não só pela filosofia e a ciência, mas também pela arte e a magia, habitando uma nova apreensão do re-ligare.

Todas as quintas, das 19 às 21:00 próximo ao Botafogo Praia Shopping. Outras informações, clique AQUI e/ou envie um e-mail para nelsonjob1@yahoo.com.br

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