CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Histéricas, graças a Deus?

Bruxaria & Imanência

Nelson Job

Brilha uma voz na noute...
De dentro de Fora ouvi-a...
Ó Universo, eu sou-te... 
Fernando Pessoa


"Autorretrato en la Frontera Entre El Abrazo de Amor de el Universo, la Tierra (México), Yo, Diego y el Señor Xólot"

Frida Kahlo



Eis que bruxas copulam com o cosmos. Os relatos tendem a ser oriundos da Era Medieval, mas elas já o faziam antes e o fazem atualmente. As ritualísticas evocavam demônios (daimons: espíritos) que as permitiam alterar a Natureza. Ora, qual surpresa? A natureza em devir muda, ser o agente de tal mudança é uma questão de agenciamento, de aliança demoníaca, como diriam Deleuze e Guattari (1997). Danças, músicas, cantares, movimentos que ressoam com o movimento cósmico agenciando mudanças: "furor uterino" enquanto potência de vida. 

O problema da conexão cósmica é a sua parcialidade, o grau inadequado. Se a conexão cósmica ou a magia é utilizada para o proveito de uns em detrimento de outros, sem nenhum critério, a auto organização vai ruir, ou ao menos produzir ruídos. Apreenda-se que eliminar as determinações culturais de nossos atos, estar consciente das convenções sociais e de quanto elas podem nos sobrecodificar, escravizando nossos desejos, é uma política cósmica que desejamos. Mas tal eliminação não deveria gerar como consequência a suposta “liberdade” de fazer o que quiser. Isso é falsa liberdade. Apenas um Ego que se entende como separado do cosmos é que pode fazer com o cosmos “o que quiser”, visto que está separado dele. Todas as práticas da chamada “magia negra” derivam dessa incompreensão. Apreendendo o ego permeável, imanente ao cosmos, sabe-se assim que o cultivo de si é o cultivo do cosmos. A plena liberdade é se compor mais e mais com o cosmos, gerando agenciamentos cada vez mais amplos, evidencia que a magia em sua plenitude possui ressonâncias com a Ética de Spinoza (2008).


Documentário "Häxan -  A Feitiçaria Através dos Tempos" (1922) dirigido por Benjamin Christensen, 
que relaciona - de forma "moderna" - bruxaria e histeria


A problemática do poder. Se você quer poder apenas pra si, ou o seu grupinho, vai ter que lidar com os outros grupinhos que o querem também. A Igreja - apreendida aqui enquanto associação com o Império Romano, perdendo assim suas características de um cristianismo original - se incomodou com o poder das bruxas, a partir disso, através do cultivo da misoginia católica latente e algumas manipulações políticas, os engendrantes do Malles Maleficarum instituíram a Inquisição. A questão é que a Inquisição foi algo muito maior do que se imagina e atravessou várias camadas da sociedade medieval e do Renascimento. Não apenas caçaram as bruxas, mas deslegitimaram a sua ontologia, o golpe muito mais poderoso que o genocídio - em termos de extinguir a bruxaria, visto que até então, apesar das fogueiras, ela insistia. A Renascença cultivou a separação entre linguagem e mundo (vide Foucault [2002] e, sobretudo, Stuart Clark [2006]) e com isso o Catolicismo ganha o mundo, pois junto com a linguagem se separa Deus: “Ele não está mais no mundo e apenas nós, os cristãos, estamos aptos a sermos os atravessadores, entre fiel e Deus”. O nome adequado para isso é reserva de mercado: “Quer contato com Deus? Apenas nós e não as bruxas, podemos lhe fornecer!”. Junte isso a Descartes (mente e corpo são de naturezas distintas), Boyle (ciência e política devem se separar: fim da alquimia enquanto filosofia e experimentação de laboratório imanentes), Newton(ianismo) (eliminação dos estudos teológicos e alquímicos para apenas sobrar os estudos físico-matemáticos, que instauram uma ciência acéfala representacional: “os números são o mundo”) e, finalmente, Hobbes (separação entre Igreja e Estado) e componha a receita iluminista da separatividade. Posteriormente, o imperativos categóricos de Kant só vieram a ampliar esse cenário. A ideia de separatividade tomou conta do mundo, e com isso, o que estava no meio, entre, foi eliminado: bruxas e demônios, os agentes intensivos, ou seja, que agenciavam a intensividade do mundo imanente.

Como ficou a bruxa? Ora, foi definhando à categoria de histérica, de forma que o furor uterino se tornaria "doença". A possessão e cópula cósmica se degeneraram em "conversão histérica". O que era imanência entre bruxa e Natureza, com a separação entre linguagem e mundo, se tornou um bug entre o inconsciente (avatar moderno da representação) e o corpo. A (im)pulsão é o “Durepox psicanalítico” entre natureza e cultura. Se uma nova psicanálise comemora que tudo é (im)pulsão, até mesmo o cosmos, falha em manter a carcomida entropia - oriunda de um zumbi chamado Modelo Padrão da Física - entendida com “pulsão de morte”. Mas aqui,  apreendemos "histeria" como a consequência da separatividade nas bruxas, mas não como "estrutura" ao algo assim, mas como faixa vibratória histérica em que um atrator ou vortex se instala. O Pai "faltoso" em que se cria o mito da histeria estrutural é apenas o mundo com um deus transcendente, inacessível. As bruxas, por sua vez, copulavam com o cosmos que é imanente a Deus, de forma que não há "falta", apenas dinâmicas e políticas de desejo divinamente cósmicas



 "Départ pour le Sabbat" (1910) Albert Joseph Pénot


O cartesianismo atomiza o ego, separando-o do mundo, expulsando a mente da natureza do corpo. Os cartesianos "esquecem" do conceito de glândula pineal de Descartes, que faria justamente a ligação entre mente e corpo. Em Freud, a glândula pineal se mascara como pulsão. A bruxa, imanente à Natureza, era possuída, naturalmente, pelas forças inerentes à Natureza. Agora, supostamente destacada do cosmos, a então bruxa, agora histérica, entende o Falocentrismo enquanto estranho, "convertendo" o corpo. Freud, em cara a Fliess em 1897, dizia: “Fliess, o que é que você diria se eu contasse que toda a minha nova teoria da histeria era conhecida e tinha sido publicada centenas de vezes, e há vários séculos? Você se lembra como eu sempre disse que a teoria medieval da possessão demoníaca, sustentada pelos tribunais eclesiásticos, era idêntica à nossa teoria de um corpo estranho e de uma divisão na consciência, tudo se resumia a substituir o demônio por uma fórmula psicológica?". Seu interesse pelo tema é herança de Charcot,  que perdurou ao longo do obra, como em seu texto de 1923 acerca da "neurose demoníaca". Nele, Freud (1976) estrategicamente escolhe um episódio documentado do seculo XVII - em que o psicanalista já declara: "Devo admitir que não estou disposto a lançar dúvidas sobre os padres"-  cujo pintor em questão solicita ao demônio justamente que este substitua o pai que morreu. Obviamente, episódio escolhido a dedo pra reificar que o demônio "representa" o pai. As interpretações em relação às feiticeiras é relegado à periferia, ou melhor, não analisado por Freud, mas por Ernest Jones. Freud escolhera um episódio de um indivíduo culpado que recorre aos padres, que registram os fatos com a perspectiva representacional e culpada do catolicismo, em que o demônio é um anjo caído, degenerado. Do ponto de vista das bruxas, o demônio não é o pai maligno ou a Lei enquanto horror, mas a emergência do relacionalismo da Natureza.

A questão é: justamente, o Falocentrismo é o estranho que é o mesmo, “mesmo” no sentido de dique no devir: a Lei que quer parar o estupor feminino ou um devir-mulher. O Falocentrismo é o avatar do separatismo: a Lei que separa natureza e cultura. A histeria é o ato de resistência que quer negar o Falocentrismo para instaurar uma nova imanência (ou “Nova Aliança” como preferem Prigogine e Stengers [1984]). O erro da bruxa contemporânea é querer instaurar uma velha imanência: Matriarcalismo, negação da ciência e do Falocentrismo (criamos uma fábula com estas imagens: A história em que se fundam todas as Histórias). A histérica sofre por viver na ilusão da representação. Freud criou uma clínica da representação, em que os demônios das bruxas - que são, de fato, virtuais da Natureza - se tornam complexos representacionais sobrecodificados em um inconsciente ele próprio entendido enquanto representacional. À luz de um devir, de uma imanência, é impossível uma re-apresentação, visto que a mudança opera inclusive na passagem de imagens, de informação. Nada pode “se apresentar de novo”, em suma: a imagem da bruxa com a vassoura não é “o feminino com o Falo”, a "vassoura", palavra e/ou imagem, é (no sentido que se estende a)  a vassoura  enquanto "objeto", imanência entre palavra e coisa.




Monica Bellucci em 3 "fases" midiáticas:

bruxa medieval em "Irmãos Grimm"(2005) de Terry Gilliam

histérica moderna em "Malena" (2000) de Giuseppe Tornatore


e como Persephone em "Matrix Reloaded" (2003) dos Irmãos Wachowski:
 seres "sobrenaturais" são reais enquanto programas na matrix


O tópico curioso de muitas histéricas se tornarem freudianas, ao melhor estilo "se não pode vencê-los, junte-se a eles", faz com que elas obedeçam a "agenda moderna", reproduzindo a ilusão da representação, operando a manutenção da "estrutura" histérica, ocupando cargo importantes em faculdades de psicologia, formações psicanalíticas e afins. Exemplo ocidental do que a antropologia simétrica conceitua como imanência do inimigo, segundo Eduardo Viveiros de Castro (2002): se nos índios Araweté o matador é possuído pelo espírito da vítima, fazendo o matador assassinar os seus; a psicanalista, "possuída" pela bruxa, histericiza toda a psicanálise! Tanto Stroumsa como Schmitt (SCHULMAN e STROUMSA, 1999)  vão nos mostrar o quanto a psicanálise é herdeira da operação cristã em difundir um imaginário da ubiquidade da culpa: reside na reserva de mercado da psicanálise e suas derivações teóricas e operacionais,   a manutenção do gap "faltoso" entre natureza e cultura,  cuja ferramenta óbvia é a pulsão, assim como A Igreja manipula o gap entre Deus e Homem, ambos, "cristianismo" e psicanálise, relembrando ad infinitum seus fiéis de sua culpa "inerente".  "Impossibilitadas" de mergulhar, de habitar a imanência, resta a histérica operar as regras transcendentais da representação. Disso resulta o jogo infinito de frustrar em maior ou menor grau o (agora supostamente desconectado) "objeto" de desejo, visto que esse "objeto" é "sempre" "faltoso", porque é também, desconectado da imanência. Esse sofrimento "eterno" dos sujeitos e objetos separados pela representação transcendental vai ser devidamente alimentado - ainda que com a ilusão de ser suavizado - na sociedade moderna e suas variações de culto com seus contratos que inscrevem o "indivíduo" em obrigações ditadas a priori: capitalismo (o dinheiro representa o valor), educação platônica (o professor representa o saber), matrimônio (contrato que representa  e domestica os afetos), divã (o terapeuta ensina a "lidar melhor" com a Lei) etc.  As histéricas olham pras bruxas em um misto de desprezo, medo e nostalgia. O rompimento com o paradigma representacional - somando aos ganhos do percurso (filosofia da diferença, ciência moderna, literatura kafkaísta e seus desdobramentos, como a obra de Philip K. Dick, o cinema do intensivo de Charlie Kaufman, Christopher Nolan, Lars Von Trier etc e as artes plásticas do pós guerra etc) gerando um campo relacional em devir, como a Ontologia Onírica - permite que tais histéricas se libertem.

Imanentemente sabemos que não existe “inconsciente”, e sim, que tudo possui um mental emergente das relações ubíquas, os devires passam, gerando vida e graus de consciência. Quão mais alheios à consciência cósmica, mais estaremos “inconscientes”, não como representação, não como “linguagem” em si, mas inconscientes enquanto alheios às gradações infinitas de um devir, consciência cósmica, imanência. Em suma, o sofrimento da histérica é por se sentir impedida por uma “barreira representacional” - que não existe de fato - de copular cosmicamente. Essa “barreira” é  uma ilusão engendrada pelos separatistas iluministas, ou o “acordo moderno”, como diria Latour (1994).

Autênticos bruxos e bruxas contemporâneos  não negam o Falocentrismo, mas propõem sua assimilação em uma cópula cósmica, um Conjugalismo (ver A Era do Conjugalismo), atualizando o princípio de Gênero do Hermetismo e a imagem alquímica do Andrógino (ver Sexar). Essa cópula cósmica é uma ubiquidade, a Vortexologia. Não mais um “tudo é pulsão” entrópico, mas ubiquidade do vortex, campo de relações que emerge de relações, ou, relações de relações, como advoga Whitehead (1978), que possuem características quânticas, coexistentes, vibracionais. Não uma administração da "neurose histérica" em relação a "Lei Eterna", mas o cultivo de acordos provisórios ressonantes imanentes a um devir (ver "O Amor no(s) Tempo(s) do Caos"), políticas místicas .

Claro que essa nova imanência, instaurada pela Ética (panteísta e neopagã) spinozista, mas atravessada pelo bergsonismo - perdendo eternidade e imutabilidade, ganhando atemporalidade com seus tempos múltiplos e intensidade em devir -, pode suscitar novidades muito estranhas, como outra transcendência, a partir da imanência, a transcendência a posteriori, ou, o que é, de fato, “ocultismo”: a disposição de intuir com o mistério, operar na vida sabendo que provavelmente haverá inomináveis atravessando o processo. Mas nem por isso os processos devem ser estancados, mas diferenciados, transformados, sendo que o trabalho, seja qual for, tem que saber lidar com os arroubos do inominável.

A nova bruxaria conjura vortexes, agora, em prol de um Relacionalismo. A velha bruxa e a velha histérica dão lugar a uma nova bruxa, ou melhor, um devir-mulher em que quase não precisa de ritualística, pois , como diria Confúcio (2005): a vida é ritual. A nova bruxaria é também, a Ontologia Onírica, em que o preço a se pagar por assumir integralmente em devir a imanência é viver um neoanimismo (imanência entre orgânico e inorgânico), a relação harmônica e produtiva entre magia e ciência (recuperando e renovando as melhores práticas de Paracelso, Giordano Bruno, Kepler e Newton - ver "Hermetismo em Aberto") e assimilar o estatuto de realidade dos sonhos, não mais somente interpretados, mas entendidos como vorticidades que podem ganhar consistência, assumindo que a natureza é plástica e que os sonhos são intuições de como operar essa plasticidade. Não existe mais metodologia a priori, mas abertura a devires: meditação, amor, criação de conceitos e de artes, desde que intuídos imanentemente. Menos demônios que se articulam com a natureza enquanto tal, mas o cultivo de devires que podem suscitar uma pós-natureza. A telepatia é uma obviedade, como proferiria Bergson (2009). A atomização do ego, se iludindo enquanto Ego Impermeável, é que nos faz alheios à telepatia, mas é da natureza do pensamento ser telepático: o pensamento se dá entre nós. A Ontologia Onírica suscita que os egos permeáveis intuam juntos, permitindo que a telepatia se dê Naturalmente. Enfim: menos um slogan ingênuo do tipo “precisamos mudar” e mais a urgência em permitir que devires passem, que abrandemos mais e mais os diques no devir, que conjuremos vortex, que deixemos a magia da vida fluir.



Bibliografia

BERGSON, Henri, A Energia Espiritual. São Paulo, Martins Fontes, 2009.


CLARK, Stuart., Pensando com Demônios - A Ideia de Bruxaria no Princípio da Europa Moderna. São Paulo: Edusp, 2006.


CONFÚCIO, Os analectos. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix,  Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia vol. 4. 1 ed. Editora 34 Letras, São Paulo, 1997.

FOULCALT, Michel, As Palavras e as Coisas. 8 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2002.

FREUD, S. "Uma neurose demoníaca do século XVII" in: O Ego e o Id e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago, 1976.

LATOUR, Bruno, Jamais fomos modernos – Ensaios de antropologia simétrica, Rio de Janeiro, Editora 34, 1994.

PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, A nova aliança – metamorfose na ciência. 3 ed. Brasília, Editora UnB1984.


SHULMAN, D.; STROUMSA. G. (orgs.), Dream cultures – explorations in the comparative history of dreaming. 1ª ed. New York: Oxford University Press, 1999.


SPINOZA, Benedictus de, Ética. 1 ed. São Paulo, Autêntica, 2008.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo,  A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2002.



WHITEHEAD, Alfred North, Process and Reality (corrected edition). 1 ed. New York, The Free Press, 1978.






domingo, 10 de fevereiro de 2013

Encontros "Transaberes"



Estes Encontros tem o desejo de compor relações que estejam em ressonância com a questão dos transaberes. Partimos de que o "transdisciplinar" ainda está referenciado em um paradigma disciplinar, o que faz urgir a proposta dos transaberes, não mais conhecimento ensinado, separado do cosmos, mas sabedoria intuída, imanente ao cosmos. Para uma maior apreensão do que intuímos enquanto transaber, leia o nosso "(I)manifesto Transaberes" neste blog clicando AQUI.

Os Encontros Transaberes tem como atrator (e/ou facilitador) Nelson Job (psicólogo clínico e doutor em História das Ciência, Técnicas e Epistemologia/UFRJ). O funcionamento, a princípio será através de reuniões de 2 horas toda terça de 10:00 da manhã ao meio dia no Largo do Machado. A discussão de temas  a partir das filosofias (ocidentais e orientais, antigas e contemporâneas, místicas e tradicionais), das ciências (Mecânica Quântica, Teoria do Caos, Teorias da Unificação etc) e das artes (literatura, cinema etc), mas, sobretudo, rumo ao atravessamento desses saberes cultivando as intuições dos transaberes, compondo com a vida.

O valor a ser pago é avaliado pelo próprio participante, sendo feito da maneira que lhe for mais adequada.

O primeiro dos Encontros será dia 05 de março de 2013 (terça-feira) no Largo do Machado: é gratuito e sem compromisso. Lá serão apresentados o conceito de transaber e a primeira proposta de tema: "Bruxaria e os Saberes".

ATENÇÃO: estamos abrindo um dia alternativo: quinta feira, às 10:00 da manhã, também no Largo do Machado. Início no dia 07 de março de 2013.

Inscrições e informações: nelsonjob1@yahoo.com.br e (21)8646-8905


Comunidade Transaberes no Facebook: AQUI






Grupo de Estudo: Poética & Vida

"Noite Estrelada" Van Gogh



Na comemoração de seus 6 anos de existência, o Grupo de Estudos chamado "A Egrégora Conceitual"  vai clamar a poesia no intuito de trazê-la para a vida, de forma que a experiência poética possa compor com um engendramento de uma vida poética em seu novo módulo "Poética & Vida"!  Para tanto vamos nos valer do mergulho na obra de alguns poetas (clique no autor para ter acesso à poesia) tais como: T. S. Eliot, Fernando Pessoa(s), Carlos Drummond de Andrade e Manuel de Barros.

Quintas, em Botafogo, de 19:00 às 21:00 em março de 2013 a partir do dia 07-03-13.                    Atrator: Nelson Job                                                         Contato: nelsonjob1@yahoo.com.br                  
                                                 
Outras informações: clique AQUI

 Próximo Módulo: "Bruxaria e os Saberes" (em abril de 2013)

Nossa comunidade no Facebook: "Transaberes", clique AQUI



   


NOVO: Para os Encontros "Transaberes" a começar às terças de março de 2013, de 10:00 ao meio dia no Largo do Machado cujo primeiro tema será "Bruxaria e os Saberes" clique AQUI. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

(I)manifesto Transaberes


Nelson Job



"Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança."


"À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
- Isto não se pode dizer, isto se aprende".

Jalaluddin Rumi   


Para a Transaberes no Facebook, clique AQUI





Urge explicitar a necessidade dos transaberes. Estamos cansados das ditas “disciplinas”. Uma disciplina é um conhecimento aprisionado em uma taxonomia qualquer. Tal aprisionamento se tornou um vício do pensar.

Mas antes de prosseguir será preciso definições de “tipos” de conhecimento:
Disciplinar: forma de conhecimento organizada em axiomas básicos com um núcleo duro de pressupostos, com pouca ou nenhuma relação com outra disciplina. A disciplina visa disciplinar, em outras palavras, adestrar o pensar àquela disciplina.
Multidisciplinar: o avizinhamento de disciplinas, “conhecimento enciclopédico”: matemática, física, história, filosofia etc
Interdisciplinar: existe uma relação entre as disciplinas, produz-se um atravessamento: as relações entre filosofia e física (máquina abstrata e atrator estranho, respectivamente); a engenharia que se utiliza da física e matemática para produzir.
Transdisciplinar: as disciplinas se tornam fundo, ponto de partida para se produzir um saber múltiplo composto por relações de disciplinas, agora tornadas uma nova disciplina, transdisciplinar: a alquimia que relaciona a filosofia da natureza como experimento laboratorial.

Porém, não basta “pensar”. O pensamento é um aspecto da vida, pode ser meramente conceitual e pouco prático. Necessitamos de um pensamento aplicado à vida, que se amalgame com o sentir. Precisamos de intuição. O pensar/sentir é a intuição e ela, não é mais da ordem da disciplina e sim, da liberdade do saber. Assim, o pensamento está para a sabedoria, como a disciplina está para o saber. O saber nunca é disciplinar, ele não impõe, ele não doutrina. O saber torna a vida ética. Não existe saber da ordem do “multi” ou “inter”, o saber sempre foi trans, atravessamento, aliança da intuição com a vida. Nem uma pura ontologia, muito menos uma epistemologia, mas uma epistemontologia, visto que o saber não opera por dualidades, mas por composição: não existe isolamento no saber, mas apenas relações de relações. O saber raramente usa o hífen para compor, dualidade dissimulada. O saber propõe novos conceitos práticos, que emergem da intuição. O saber é a disciplina totalmente permeável, por exemplo, a Ontologia Onírica.

O saber pode compor com qualquer coisa: filosofia, física, antropologia, literatura, música, cinema, magia, espiritualidade, dor de dente, pedras. Não existem proibições para o saber, apenas modulações, no sentido que um saber melhor é o mais necessário para uma provisória relação de forças. Exemplo: a Mecânica Quântica e a Monadologia podem ser muito úteis para conceituar melhor a consciência, mas a Teoria do Caos e o Hermetismo são mais necessários para se pensar a relação entre arte e vida, mas são apenas modulações, ênfases, relevâncias, visto que os quatro campos são úteis para pensar ambos os problemas, e estes também se relacionam. O saber é imanente ao seu “objeto” de forma que se torna precário falar em “sujeito” e “objeto”, falemos sim em atratores, relação de relações, vortex, campo de forças. A Monadologia não é um saber “em si” mas um saber na relação com outros. Pois evidencia-se que todo saber é transaber, um suposto saber nunca se isola, pois é da prática da sabedoria relacionar: a Ética de Spinoza que é um corpo contínuo de saber, mas o viés pode apreendê-lo simultaneamente como um tratado de óptica, teologia, ética etc.

Vejamos o caso de Isaac Newton. Sua sabedoria envolvia física, matemática, filosofia, alquimia, magia, teologia etc. O que se seguiu depois dele, o “newtonianismo”, foi uma dilaceração de seu saber em disciplinas físico-matemáticas. Newton era sábio, o newtonianismo é disciplinar.

Porquê um (i)manifesto? Porque estamos saturados de “manifestos”, estamos compondo também com o imanifesto, transcendências, mas a posteriori, religiões, ainda que entendidas como re-ligare, religações de mundo e linguagem, caos e vida: Tao, impermanências, feitiçarias etc.

Não se tolera mais nenhuma dualidade, nenhuma ilusão de “parte” definitiva. Toda “parte” é, de fato, uma mudança na gradação: meu corpo é mais denso que o ar, por isso eu o atravesso, mas somos imanentes. Um e múltiplo como imanência e modulação de coagulações e descoagulações.

Também não há mais crença alguma na ausência de movimento, mas em gradações de velocidades, ainda que um vortex possa estar aparentemente sem deslocamento. Ali, quase imóvel, ainda possui velocidade, velocidade que não é mais da ordem do “ser”. O verbo ser não indica essência ou coisa assim, o verbo ser se torna sinônimo de devir.

Um transaber possui devires estranhos a ele, isso nos diz que um transaber nunca é definitivo, mas provisório e não “garante” nada, mas exercita atos éticos, cultivo de cosmos ético. O transaber é ético por definição, se não produz aumento de potência no intuir é porque não é saber, mas disciplina. Um transaber pode deixar de devir e, com isso, transcender rumo ao Inominável, mas a partir daí não intuímos (muito menos sabemos) mais nada. Essa transcendência nunca é a priori, mas as transcendências a priori decretam disciplinas essenciais que axiomatizam e aprisionam a intuição, relegando-a ao pensamento, sendo, de fato, imanências  virtuais. A intuição só possui axiomas provisórios e intercambiáveis.

Um transaber possui dinâmicas que ressoam com a filosofia oriental e os Estóicos, no sentido que um saber se desdobra contínuo e imanente, diferente das ideias parciais - conectadas ou não - da filosofia ocidental em geral.

Um transaber nunca é um abrigo na Tempestade, mas é a Tempestade em si, nos torna Tempestade, em que o perigo é evitado pela precisão dos passos da dança tempestuosa.

Um transaber convoca ao amor, mas amor como liberdade, como comunhão de cosmos com o cosmos, não é isolamento contratual de partes.

Um transaber não intui por neuroses, existem apenas devir, ética, sendo que os problemas derivados disso são níveis de preguiça existencial, diques no devir. Não existem aqui conceitos patológicos, muito menos psicopatológicos, taxionomias tristes. Existem apenas níveis de gradação de preguiça existencial, cuja alternativa é intuir mais e mais transaberes.

Um transaber  é sempre experimental, nunca é definitivo.

Um transaber nunca é “final”, sempre procurando mais e melhores relações, alianças, composições, agenciamentos, ressonâncias. Tampouco é teleológico, ainda que possua leves tendências provisórias: um transaber suscita devires.

Um transaber não “está” no espaço nem no tempo, mas entre eles. A emergência de um transaber é indício que algum vortex apreendeu esse entre intensivo.

Um transaber não aponta o sentido, mas produz novos sentidos processualmente, no sentido que o sentido da vida é criar sentidos para ela.

Network A
Casey Reas "Process 4"