CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Epistemontologia da Vertigem: da mônada ao vortex


                                                                                                                       Nelson Job




A certa graça das incertezas é a única obra de Deus. Inacabada.


Vertigens são imanentes aos conceitos. Elas anunciam a proliferação ontológica, a abertura alegre do cosmos, uma consistência perante o abismo. Quando o conceito é utilizado com pouca ou até mesmo sem vertigem, geralmente pelos seguidores de um “grande autor”, o conceito se domestica, perde a selvageria vertiginosa de outrora. Cabe então, retirar um conceito de sua morbidez e alegrá-lo com seu desdobramento, com um novo uso, quiçá, criando um novo conceito. Assim, justifica-se um novo conceito, a despeito da histeria em torno do “novo”, muitas vezes gerado pela compreensão apressada do devir.

Criamos, pois, o campo conceitual assim chamado Ontologia Onírica. Ela é uma epistemontologia (epistemologia e ontologia imanentes) que emerge das confluências entre uma magia que apreende o caos enquanto unidade múltipla, a filosofia da diferença que se diferencia em devir, em outras palavras, que se permite deixar de ser “a” Filosofia da Diferença pra se tornar outra coisa e a ciência moderna, incluindo algumas especulações, tudo isso devidamente atravessado pela arte (1). A Ontologia Onírica produz vários novos conceitos: acerca do cinema, a imagem-intensivo (ver “Inserção nA Origem”), na literatura, o sertão cósmico (ver: “Ser-tão Cósmico”), acerca da sexualidade, propõe o Conjugalismo (ver “A Era do Conjugalismo” e “Sexar”), a proposta prática do assimilador onírico (ver “A estÉtica da Tempestade”) e, sobretudo, acerca de uma “ontologia em devir”, ela propõe uma “transcendência a posteriori”. Todos esses conceitos possuem um nexo conceitual que sustenta a epistemontologia da Ontologia Onírica que é o vortex.

    

Em que é relevante o vortex? Tal questão torna necessário repensar o conceito de mônada.

A mônada (ver: “Devires” [2]) é um dos conceitos mais poderosos e duradouros do pensamento. O filósofo xamã Pitágoras já nos falava dela por volta dos 500 a. C. A mônada se tornou conceito importante em correntes místicas no Ocidente, retornando com força na filosofia através de Leibniz no século XVII. Com ele, a mônada adquire características mais específicas: que é um espelho vivo e perpétuo do universo, fechada etc. Gabriel Tarde acrescenta janelas na Monadologia e em Deleuze, a mônada se torna uma casa barroca sendo uma mônada tardiana com um puxadinho leibniziano. Entre Tarde e Deleuze, Whitehead atualiza a mônada através do seu conceito “ocasião atual” de sua filosofia orgânica, cujo processo seria o nexus entre as ocasiões atuais.

No tocante a Whitehead, evidencia-se o problema do lógico discretizando o devir (ocasião atual) para depois juntar (nexus). É necessário para o pensar, ou melhor, para o intuir - se quisermos conjurar ressonâncias bergsonianas entre o pensar e o sentir – que se crie conceitos em devir. A discretização dos conceitos ontologicamente contínuos é uma gambiarra que devemos evitar, apesar dos enormes serviços que Whitehead prestou a filosofia.

Voltemos à mônada. Sua versão sem janelas a torna totalmente impermeável às relações diretas. Com Tarde e suas janelas, a mônada ganha uma permeabilidade parcial. Na Ontologia Onírica, é necessária uma permeabilidade plena, o que não gera uma dissolução necessária - no caso, do vortex –, mas uma imanência (e não “ubiquidade” [3]) da permeabilidade. Assim, não só os contatos através de janelas, mas quaisquer relações são, em si, plenas de permeabilidade. As diferenças de consistência-densidade-gradação é que definirão a dissolução, composição, transformação do vortex. Sendo assim, a mônada nos parece, à luz da Ontologia Onírica, por demais mecânica, ou, posto explicitamente: a mônada de leibniziana sofre do dualismo de interior e exterior (atenuado pela “dobra”) e a tardiana, minimiza o anterior apenas para criar outro, o dualismo de “parede” e janela...

A Monadologia vai criar ecos na física do século XX através dos fractais (ver: “Fractais, quânticos, monádicos”). O problema aqui se reitera: os fractais são como fotografias das mônadas. Necessitaríamos de algo como fractais animados, por os fractais em movimento. O cinema ainda não os gerou, visto que as imagens até então produzidas - as imagens cristais que Deleuze nos fala: "O ano passado em Marienbad" (Alain Resnais, França, 1961), "A dama de Xangai" (Orson Welles, EUA, 1948), para ficar com 2 bons exemplos - até então não possuem a autossimilaridade matemática que os fractais possuem e as computações gráficas de efeitos especiais, que se atem apenas em um algoritmo, mudam circunscritas à apenas um tipo de mudança .

Uma característica da mônada é o perspectivismo, problemas que ressoa com o dos fractais: o perspectivismo engessa as mudanças do ponto de vista. Aquela determinada mônada vai gerar apenas uma perspectiva, só é possível apenas uma vista de um ponto, dique no devir, ainda que a mônada esteja em devir, a perspectiva não está. O exemplo do perspectivismo ameríndio: os urubus, para os índios, sempre verão vermes como peixes grelhados; diques no devir etnográfico, relegado eternamente a um raciocínio baseado em regra de 3... Apenas gostaríamos de suscitar a possibilidade de um insight "urubúrico" (e não ourobórico, ou seja, recursivo):


 
                O problema da recursividade monadológica ("Monotonologia Implicada") no curta Room 8 
(James Griffiths, Reino Unido, 2013)...





... e no curta Doodlebug (Christopher Nolan, EUA, 1997)


Brincando (no sentido polifônico de "playing") com os conceitos: de como um devir lagarta-mariposa "muda de perspectiva" do casulo de "casa" para "prisão". Se o perspectivismo tenta permeabilizar o sujeito (agora “superjecto”) através de sua instalação em várias mônadas, o problema é apenas reduzido de escala: a mônada é agora o sujeito enquanto tal, invariável, mas compondo variações. Percebe-se ainda um estruturalismo, mais "dinâmico", um estruturalismo "ao quadrado". A Ontologia Onírica quer uma imanência das velocidades, sendo assim, cada vortex pode mudar de perspectiva, pois muda de velocidade, alterando seu em torno e, por conseguinte, a imanência, ainda que sua composição esteja supostamente compondo uma grande perspectiva, já imanente de micromutações. Diferente da mônada, que compondo variações de perspectiva, ela própria produz apenas uma: Monotonologia “implicada”, ainda que compostas de outras mônadas que propiciem variação apenas se outras mônadas se instalam. Limite mecânico (4) da mônada: seu vício constituinte no um (mono). Não é o caso aqui de criar “plurônadas”, isso seria apenas tornar a “raiz quadrada” do sujeito (mônadas, que, por sua vez, seria a fração infinitesimal do universo: 1/) em “raiz cúbica”, ou, nos livrando das metáforas matemáticas, apenas criando outros mecanicismos, ubiquidade de ubiquidade. Tampouco seria o caso de suscitar um "transperspectivismo", mas de cultivar uma intimidade imanente entre micro e macrocosmos. A Ontologia Onírica é pura imanência, que justamente por isso, por não compor com dualismos, pode se tornar impura.




Essa questão se desdobra, ou melhor, vortexeia em outra: se no paradigma cartesiano do sujeito, as várias culturas (ou sujeitos) enxergam uma mesma Natureza, já o  perspectivismo é a inversão da relação entre natureza e cultura. O perspectivismo é um multinaturalismo, com uma única “cultura”, a saber, o ato de ver. Permanece-se, assim, no dualismo. A questão é menos se a antropologia é simétrica ou não, e mais de inscrevê-la em uma cosmologia, de fato, imanente. Dito de outra forma: na Ontologia Onírica, a questão não é se o ponto de vista gera sujeito ou objeto, mas que existem outras instâncias para além do ponto de vista, nosso neoanimismo é para além do ocular, e quando  a questão é um ponto de vista, esse o é plenamente imanente entre sujeito e objeto, natureza e cultura.  Almejamos uma pura imanência que não esteja viciada no ato de ver (5), mas as relações se dão por quaisquer dispositivos perceptuais: cheiro, temperatura, orgasmo, gargalhada, per-versas polimorfias éticas;  ainda que assumimos uma possibilidade de transcendência a posteriori, que pode não ter nada a ver com dualismos. Sendo assim, o vortex é uma epistemontologia, justamente no sentido em que não há dualismo, natureza e cultura de saída já lhe são imanentes. Nem sequer voltamos a um bergsonismo (ainda que nos inspire deveras) em que atual e virtual emanariam do intensivo: o vortex é puramente intensivo.

Essa problemática nos remete ao rizoma de Deleuze e Guatarri: colocar dualismos uns contra ou outro na luta, por sua vez, contra o modelo. Quando, na Ontologia Onírica, invocamos uma Vortexologia, toda ela intensiva, não precisamos mais de lutar contra dualismo nenhum. O rizoma produz uma significativa transcendência na filosofia do século XX: a afirmação de não existir transcendência no rizoma, ou seja, a criação de um universal conceitual, como se dissessem: “nunca haverá transcendência, por conseguinte, viva a eterna imanência!”.  Para desviarmos desse tipo de contradição (contra a transcendência "ontológica" cria-se uma transcendência "epistemológica"), assumimos a transcendência a posteriori, a possível filha bastarda do conceito mais selvagem e mais vertiginoso de devir.


Notas:
1-  Apreendemos, como nos mostra Deleuze e Guattari, as caóides: arte (emoldura o caos), a filosofia (conceitua o caos) e a ciência (explora o caos). Um desdobramento a partir desses autores  é a nossa criação da caóide magia (assimila-se o caos), em outras palavras, re-ligare.

2-   Nos textos remetidos pelos links serão encontrados a explicação mais laboriosa dos conceitos aqui citados com suas devidas bibliografias.

3-   Entendemos a diferença entre imanência e ubiquidade no sentido que a primeira existe em si e a segunda está por toda parte, ou seja, a imanência é plena de si mesmo e a ubiquidade é constituída por algo que está nas, mas não constitui, as partes.

4- É notória, sobretudo para este blog, a relação que Penrose e Hameroff estabelecem entre mônada/ocasião atual e a seu entendimento do "colapso" de onda na Mecânica Quântica, a Redução Objetiva. (ver: "Diferenças Emaranhadas"). O problema aqui se mantêm, porque a MQ apreende os devires da matéria através do crivo funcional da matemática, aliada, claro, às teorias da física. A apreensão na Ontologia Onírica da matéria entra ressonância com o modelo de consciência quântica de ambos autores, mas em seu próprio processo conceitual, diferenciado; em outras palavras: além do aspecto exclusivamente funcional da ciência.

5- A insistência em um paradigma ocular - pontos de vista de pontos de vista -, pode cair no problema levantado por Spike Jonze, um egocentrismo monadológico, que o diretor  exibe magistralmente na famosa cena de "Quero ser John Malkovich" (EUA, 1999) : 




quinta-feira, 2 de maio de 2013

Workshop: Sonhos & Transaberes

Jacek Yerka

Nessa Workshop, vamos trabalhar as abordagens oníricas, tecendo seus conceitos e construindo uma nova compreensão dos sonhos. Abordaremos o sonho nos seguintes tópicos:

. Tradições antigas: Xamanismo, Hinduísmo, Taoísmo, Judaísmo, Budismo e Cristianismo 
. Grécia Antiga: interpretação dos sonhos de Artemidoro
. Filosofia: Neoplatonismo, Bergson e María Zambrano
. Psicologia: Freud, Jung e Félix Guattari 
. Ciência: neurociência e consciência quântica de Roger Penrose
. Magia: o ato onírico etc
. Arte: "Sandman" de Neil Gaiman, "A Origem" de Christopher Nolan e "Ink" de Jamin Winans

Todas esses saberes confluem para apreendermos a passagem de uma compreensão representacional do sonho rumo ao estatuto de realidade do sonho: a Ontologia Onírica.

Dia: 11 de maio, sábado
Horário: de 10:00 às 15:00 com 1 hr de intervalo para o almoço
Coordenador: Nelson Job (psicólogo clínico e doutor HCTE/UFRJ)
Local: Largo do Machado
Valor: R$100,00 
Inscrições e informações: nelsonjob1@yahoo.com.br e (21) 8646-8905
Forneceremos certificado

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