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segunda-feira, 24 de junho de 2013

Brasil-vortex

Manifestações & Vortexologia Aplicada


Nelson Job



Tonight the streets are ours
These lights in our eyes, they tell no lies

Those people, they got nothing in their souls

And they make our tvs blind us from our visions and our goals

"Tonight the streets are ours" Richard Hawley







O Brasil está passando por uma transformação sem precedentes na História. Os intelectuais tentam adequar o fenômeno às suas teorias velhas sem dar conta do que está acontecendo. Este texto é um exercício de aprender conceitualmente com o acontecimento atual e produzir novos conceitos bem como uma ontologia que lhe seja própria. 



As manifestações do Movimento Passe Livre ganharam adeptos, ressoando com as insatisfações de vários estudantes no Brasil, produzindo ressonância e gerando com isso um movimento muito mais amplo. Vários vetores foram acrescentados: o grupo Anonymous, pessoas sem partido com uma insatisfação geral com o país, vários segmentos da classe média, alguns partidos etc. A catalisação se multiplicou, sobretudo através das redes sociais, o que gerou uma imensa massa de manifestantes nas ruas, com as mais variadas agendas. Destacam-se a alegria, a leveza do movimento, o apartidarismo, apenas mudando de tom com alguns manifestantes mais agressivos, recebendo a alcunha midiática de "vândalos", sobrepondo irresponsavelmente os manifestantes mais agressivos, os oportunistas e os "infiltrados". Muitos vão para as passeatas com o intuito de participar de algo que possui popularidade entre os seus, mas saem dali mais informados, politizados. O movimento não é exatamente racionalizado, mas possui uma intuição coletiva de que é necessário mudar. Pouco se divulga que as cidades do interior também realizaram suas passeatas, fazendo com que o número de manifestantes tenda a ser muito maior ao que é divulgado na mídia - que chamarei de "tradicional": TV, jornais e rádio - que tem dividido espantosamente o número de manifestantes nas ruas para 5 vezes menos (em geral) em suas matérias, minimizando o movimento. A princípio contra, depois colocando alguns aspectos positivos e finalmente, a mídia tradicional vem agora alardeando o movimento como um momento histórico que mudou o país para sempre.



Os resultados estão sendo rápidos. Diminuição do preço das passagens de ônibus em várias cidades, ainda que não de forma ideal, pronunciamento da presidente e subsequente reunião com governadores, anunciando possibilidade de plebiscito etc, queda da PEC 37, mobilização com debates de várias entidades: OAB, universidades, sindicatos etc. É preciso, evidentemente, ter cautela com os manejos da presidência: de um lado, pode estar se utilizando do movimento para exercer um poder que não lhe cabe, de outro, pode estar propondo mudanças que não possuem consistência democrática. Se algo der errado, a "culpa" é dos outros que não toparam ou de quem não propôs soluções viáveis? De todo modo, a massa até então apática da nação se tornou um grande agregado mobilizador da sociedade. Espantoso, imprevisível, porém, em alguns pontos urgem um desdobramento do debate:



Fluxo de informações- Pela internet, várias agendas foram anunciadas, muitas delas facilmente coaptadas por manifestantes desavisados e ávidos de sentido. Através de uma pesquisa mais aprofundada, percebe-se, por exemplo, que não foi votada exatamente uma "cura gay" (claro que devemos nos atentar para e combater as tentativas da bancada evangélica de forçarem aspectos de sua "fé" - leia-se poder - em nossas vidas), tão alardeada, e existe uma grande desinformação em relação às PECs. As opiniões variam, proporcionais às gradações de informação que cada vetor possui. Também é preciso entender qual revindicação deve ser orientada a qual entidade: quais dos "3 Poderes", quais instituições etc. Sendo assim, o próximo passo do movimento, ainda que se mantenham as passeatas, deve envolver também um maior estudo dos temas. É preciso estimular os jovens e todos os manifestantes em geral que se reúnam para debater os temas, estudar autores dos mais variados campos de saber que possam ajudar a compreensão, manutenção, desdobramento e posicionamento em relação ao movimento. A ferramenta do grupo de estudos é extremamente bem vinda, bem como os grupos de discussão nas redes sociais. O MPL evoca Zigmunt Bauman, alguns celebram Pierre Lévy, adeptos da Filosofia da Diferença vão se lembrar de Toni Negri, Manuel Castells ganha destaque etc. Claro está que o descentramento e intensa relacionalidade não-local do movimento nos conduz a considerá-lo, de fato, rizomático, no sentido de Deleuze e Guattari. É justamente Félix Guattari que vai profetizar em 1989 em sua As 3 Ecologias o que está se passando: "As oposições dualistas tradicionais que guiaram o pensamento social e as cartografias geopolíticas chegaram ao fim. Os conflitos permanecem, mas engajam sistemas multipolares incompatíveis com adesões a bandeiras ideológicas maniqueístas".

Todos esses autores e conceitos nos ajudarão, mas é preciso alardear o que Gregory Bateson chama de aprender a aprender: o acontecimento nos pede novos conceitos, que se construa saberes a partir dele.




"V de Vingança" Moore & Lloyd, 1982



O grupo Anonymous- Exite uma grande desconfiança em relação ao grupo inspirado no personagem V de Alan Moore. As ideias do bruxo de Northtampton são nobres, porém, não necessariamente buscadas pelo referido grupo. A questão é que qualquer pessoa pode ser um Anonymous e cada página nas redes possuem ideias diferentes. Não existe uma unidade, uma homogeneidade dos Anonymous. Cabe a cada um discernir em cada página de cada grupo de Anonymous o que lhe interessa. Para conhecer o que pensa Alan Moore, recomendamos esse documentário:






 "The Mindscape of Alan Moore" Legendado (2003, Reino Unido) Dez Vylenz e Moritz Winkler



Apartidarismo- Como dissemos, o caráter geral do movimento é apartidário, sendo  criticado em relação à reação violenta a quem portou bandeiras de partidos dentre os manifestantes. Alguns comentam que a característica do apartidarismo é o fascismo. Não parece o caso, mas sim o contrapartidarismo, que, de fato, alguns manifestam. O apartidarismo não é despolitização, e sim outra política. Somos entusiastas de uma democracia direta da era da internet, em que o povo pode votar diretamente as suas leis. Isso não envolve ausência de partidos, mas uma gama de pessoas que não deseja ser representada. Claro que esse tópico merece um desdobramento muito maior, um estudo das possibilidades de realizar-se, das regras possíveis, da tecnologia disponível, do aspecto jurídico, se o voto distrital seria uma etapa inicial viável etc.



"Esquerda" e "direita"- O movimento foi considerado por muitos como sendo de "esquerda" e que houveram tentativas da "direita" de se apropriar do acontecimento. Os termos oriundam-se da Revolução Francesa, evidenciando os locais em que, de um lado, a nobreza e o clero e de outro, seus opositores, se sentavam na assembleia. Este blog tem ojeriza a dualismos e parte do princípio que "esquerda" e "direita" são fetiches conceituais de pensadores políticos, sendo que os próprios políticos apenas os utilizam como estratégias de manipulação para chegarem e se manterem no poder. São conhecidas as histórias dos membros do Partidão que, exercendo cargos mais importantes, se regozijam dos mais variados privilégios assemelhando-se à meritocracia normalmente associada à "direita". O que de fato é relevante são as ideias, plurais e variáveis e o exercer político inscrito em uma Ética. Assim, "direita" e "esquerda" manifestam-se enquanto anacronismos intelectuais de pouca ou nenhuma utilidade, apenas se relacionando fragilmente a, respectivamente, uma escolástica paranóica e hegelianos frustrados. Se existe algum conceito de esquerda que vale atenção este é o de Deleuze, que pode ser assitido neste trecho de entrevista:





"Abecedário de Gilles Deleuze" (França, 1996) Pierre-André Boutang



Não havendo governo de esquerda, pois esta evoca um devir que corre às margens do poder, só nos resta lembrar que o próprio autor acima não possui o hábito de utilizar o vernáculo bilateral em seus textos.

O despreparo da polícia- Foi largamente documentado a ineficiência e "truculência" da polícia em muitas das manifestações. O policial recebe um salário baixo, um treinamento pífio, tem que frequentemente proteger a sua família da possível vingança dos que eles porventura prenderam, gerando uma instabilidade psicológica considerável. Depois dessas manifestações, a nação inteira se transformou em inimigo potencial, o que exponencializa a paranóia, além do fato de que muitos deles concordam com os objetivos gerais da manifestação, mas são ordenados a irem contra. Motivos o suficiente para "surtarem". Isso não justifica as ações deploráveis, mas indica soluções para um aparato policial menos doente. Uma das primeiras atitudes sensatas seria a de extinguir a Polícia Militar, peculiaridade desnecessária de pouquíssimos países além do nosso. Aliado a esses fatos, o BOPE vai deixando de ser ícone pop para se tornar agente nefasto do governo carioca, este por sua vez, transmutado em inimigo público n. 1. Os novos ícones são, principalmente, V, Banksy e Joaquim Barbosa.




Banksy

O que explica o acontecimento das manifestações? Henri Poincaré cunhou em 1885 a bifurcação, que foi apropriada pelos sistemas dinâmicos, falando de uma trajetória que vinha se mantendo em uma tendência e, repentinamente, adquire outra, inesperada. Vamos entender essa bifurcação brasileira:

1) O Brasil: é preciso mergulhar nas singularidades brasileiras. O agenciamento Euclides da Cunha-Guimarães Rosa-Glauber Rocha vem nos avisando do sertão brasileiro enquanto potência múltipla de agenciar novos afetos, mobilizações, políticas excêntricas, Corpos sem Órgãos (ver: "Ser-tão Cósmico"). O Brasil é uma inconstante novidade histórica que convive com uma pluralidade geográfica, genética, cultural, afetiva permitindo que o brasileiro seja um amálgama de relações extremamente rico, instável e excêntrico. Possui "PhD" em habitar o Caos, em sobreviver no caótico. É rítmico, alegre, pulsante, por definição. Todos os problemas intrínsecos na brasileiridade oriundam da dificuldade em  relacionar de forma potente tais singularidades: as manifestações são o indício que as potências da singularidade a partir de agora se tornaram mais intensas.



2) A internet e as redes sociais: as revoluções nascem de uma anomia (quem são as lideranças? qual é a agenda do movimento? qual é a ideologia?) e geralmente são cooptadas pelo grupo que fornece as respostas mais rapidamente com um poder considerável de persuação em vários níveis. Partidos e movimentos políticos anteriores às manifestações tentaram realizar essa cooptação com o movimento e não conseguiram. A rapidez de respostas e alertas nas redes sociais permitiram a continuidade da heterogeneidade do movimento, e assim deve prosseguir. Os jovens, em geral, possui um hábito de leitura baseado na agilidade nos 143 caracteres do Twitter. Essa agilidade permitiu, de um lado, a rapidez de expansão do movimento, por outro, uma agenda confusa e pouco refletida. Cabe a todos os que são mais lentos e reflexivos, gerarmos também textos curtos que possam convidar  a "geração 143 caracteres" a expandir gradativamente sua capacidade de leitura e reflexão. Não que a internet seja "o messias que vai nos redimir" e sim, uma ferramenta que otimiza o fluxo e o acesso à informação. Porém, não está claro o nível de controle que se pode ter dela. Fala-se em "tráfico de informações" com dados dos usuários do Facebook, por exemplo. Seria importante as pessoas utilizarem mais de uma rede social, mais de uma ferramenta de busca, aguçando cada vez mais seus discernimento e ter em voga encontros pessoais, não se aterem ao virtual binário.

3) O Vortex (epistemontológico): este blog vem notando uma instabilidade ontológica na tecitura da realidade. Para desenvolver um saber transdisciplinar aplicado à vida, um transaber, cunhamos o conceito de vortex (ver: "Vortex: ubiquidade cósmica") em que o vortex da ciência é apenas uma intuição parcial do conceito aqui tratado com mais profundidade na articulação de saberes. A Vortexologia diz que o tecido do real é formado por vortex que compõe vortexes e são constituídos por vortexes, infinitamente do menor ao maior, do mais intensivo ao menos intenso, com níveis variados de permeabilidade imanente. Não existe vetor sem dinâmica no vortex. Ele é instável, podendo ser o estopim de algo absolutamente novo, inominável, que chamamos de transcendência a posteriori.  As manifestações são até agora o melhor exemplo do vortex tal qual nós conceituamos: heterogêneo, instável, composto por vários vortexes e ressoando com outros vortexes turcos, árabes, egípcios etc. Não se pode prever em que esse movimento vai decorrer: talvez uma transnação, uma nova relação com os poderes ou alguma novidade ainda inapreensível. Fica notória a necessidade de compor conceitos como este em que não se sabe a resultante de seus devires mais selvagens: o saber enquanto agente incontrolável. Portanto, as "autoridades" não apreendem o vortex, os conservadores não o entendem, os taxonomistas não o localizam, mas os sonhadores ontológicos o clamam: o vortex-Brasil pode inclusive perder a brasileiridade, suscitando vetores inauditos, deixando de ser Brasil.

Assim, esse movimento sem precedentes na História continua sua caminhada desterritorializando as "verdades" acerca dele. Vamos co-escrever esse peculiar interlúdio na História de forma a não decretar estilos nem estipular regras definitivas, mas definições provisórias, lampejos rítmicos. Cabe a qualquer agenciamento criar os próximos termos a serem acolhidos, desde que profundamente éticos e, em seguida, descartados, problematizados,  transformados pelos desdobramentos seguintes deste acontecimento...