CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

E-mail a um jovem vortexeador



Caro(a) vortexeador(a),
Escrevo-te este email para que possa habitar o vortex com consistência. Tarefa,  ainda que árdua, deveras relevante. Pois, na ausência de caminho ou regras, nos resta perscrutar as sinuosidades que, num átimo, se manifestam. Eis que, com alegria:



ClAmor à Acontecência


"Autumn Rhythm" Pollock


A Tempestade rosna carinhosamente diante da ironia que é o processo civilizatório, pois este faz com que, a despeito do transbordamento da Natureza, os corpos se banhem em chuveiros elétricos. Entre o chuveiro e a Tempestade existem um ou mais vortexes. Cantamos para vocês, que querem habitar esse vortex.

As máscaras de deus que se apresentam ao longo da vida são trampolins para a Acontecência. A Acontecência nos escapa em toda tentativa de sucumbi-la, subordiná-la a um dogma, Verdade, eixos que estraçalham a Acontecência em “fatos”, “objetos”, “medidas”, “conceitos”. Ao descascar as máscaras de deus, incluindo deuses contemporâneos: a ciência, o conceito, habita-se a Acontecência. Os conceitos são tangentes de devires que ressoam com a Acontecência: é prudente ser infiel ao conceito, o queremos apenas provisoriamente, como trampolim, por exemplo: Nirvana, Tao, self, imanência, todos relevantes, porém, provisórios. O conceito “em si”, enquanto “eterno”, é uma falácia, assim como as funções da ciência, que elegem o ponto A e o ponto B enquanto lugares definitivos no fluir tortuoso e intenso do espaçotempo. O espaçotempo é um campo frágil em que tentamos habitar para avistar a Acontecência. Porém, a Acontecência está para além do ver e até mesmo do Ser. A Acontecência emerge quando abdicamos do nosso ritmo enquanto coágulo. A Acontecência é a festa para além do Cosmos em que todos os ritmos confluem para além. Em suma: nem nós, nem ninguém somos “atravessadores” da Acontecência. A Acontecência desvencilha-se de pontes e caminhos, coágulos do espaçotempo, pois é, porém é sem ser, po-ética experimental, devir mais selvagem, daqueles desprovidos de diques.

Quando o conhecimento bater à porta afirmando que “as regras podem mudar” e “que o Cosmos já não é mais o mesmo”, com toda a pompa que está trazendo a novidade, é preciso apreender as sutis reverberações da Acontecência em nossas incrustações e saber que as regras mudam até se esgotarem, até deixarem de serem regras, assim como o Cosmos é nosso apelido para a totalidade, sendo que a totalidade é uma brincadeira que topamos inadvertidamente. Totalidade é a nossa busca de fim, se queres um fim, finja que o tenha, mas nós estaremos em outro campo, que nos suscite alegrias.

As máscaras de deus, as ancestrais e as neófitas, (apenas critérios do Tempo, fingindo com ardor reinventar o Mesmo) causam essas vertigens enveredando para a busca. A busca só leva a busca, no sentido que a multiplicidade “busca” o Um e o Um, entediado de Plenitude, “busca” o múltiplo. Tais “evoluções” “evoluem” rumo ao seu extremo, muito além de uma instância eterna e definitiva, apenas para nos indicar o clamor de coexistência entre um e múltiplo, mas como estado instável de mais um trampolim provisório. Quando se dissipam as máscaras, a Acontecência se manifesta, perde-se o sentido da busca, de evolução teleológica: o que emerge, mais precisamente, são gradações de intimidade com a Acontecência, que variam de acordo com nossa disposição em estar, um estar peculiar, para além do ser e suas circunvoluções.

As contradições - alucinações do pensamento, incrustações do intuir - quando eivadas de puro intuir, ganham sotaques de paradoxos, que são suaves fagulhas podendo galgar o conceito enquanto trampolim para a Acontecência.


E o amor, para além de qualquer máscara de deus, é a Acontecência enquanto pista do além-coágulo, um convite ao descoagular, o feixe que flui rumo a Acontecência. Os coágulos tendem a contratar o amor. Quando se contrata o amor, ele se esvai, encrustecendo em lei. A lei, bem como seus agentes, como o chuveiro enquanto pleonasmo degenerado, lutam contra a Tempestade. A Tempestade, em todo o seu esplendor, é o soprar suave da Acontecência nos coágulos. A Tempestade é a vida que se convida a viver. É o amor sem os amortecimentos oriundos do pensamento. É o transpalavrar da palavra, o inconceitual do conceito, a conjuração melodiosa nas bordas entre ciência e arte. A Acontecência, umas acontecências, outras e aqui: Acontecência.

                                                                                                                                                      Inté,
                                                                                                                                        Nelson Job