CO(S)MICIDADES: dia 15/10/16, sábado, de 10 às 18:00 (Rua Barão de Guaratiba, 29, Glória)

sábado, 21 de novembro de 2015

Da consciência do Império ao Império da Consciência:

borrando Ocidente e Oriente com Philip K. Dick

(este artigo foi inicialmente apresentado e publicado nos anais do congresso 


Nelson Job






“Combater o Império é
ser infectado por sua loucura.
Isso é um paradoxo; quem quer
que derrote um segmento do
                                                                                                                          Império se torna o  Império;                                                                                                                              Ele prolifera como um vírus,
impondo sua forma sobre seus
inimigos. Logo, ele se torna
seus inimigos."
 “Exegesis”, Philip K. Dick


Este artigo será melhor apreendido se o leitor conseguir minimamente “descansar” suas crenças e lidar com as idéias aqui com abertura. O que está sendo proposto é uma radicalização de como se lida com problemas em âmbito (epistem)ontológico e se oferece uma prática como alternativa. O problema é colocado à luz do que chamamos Transaberes[1], no entanto, a postura ética sugerida aqui é acrescida de alguns sábios do Advaita Vedanta, sobretudo indianos.

O que problematizamos aqui está precisamente na epígrafe deste artigo, retirada do livro VALIS de Philip K. Dick (2007) [para saber mais acerca Philip Dick neste blog, clique AQUI]. Para entender seu curioso contexto é preciso entender que Dick (PEAKE, 2015) (1928-1982) atualmente, é considerado um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos e extremamente influente, com várias das suas obras adaptadas pelo cinema (Blade Runner, Minority Report, Vingador do Futuro, O Pagamento etc). Ele viveu uma vida conturbada, com pouco dinheiro, casando-se várias vezes, experimentando episódios de “loucura” e uso de drogas. Toda a vida e obra de Dick foram marcadas pela questão “O que é realidade?”, cuja resposta mais canônica do autor, também de VALIS, é: “A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece”.

VALIS é um livro singular, pois, personagem e autor se fundem de forma imprevisível, misturando obra e biografia de Dick. Num estilo simultaneamente kafkaísta e sci fi, PKD borra (ou faz a obviação, no sentido de Tim Ingold) vida, obra, autor e leitor.

As questões referentes à realidade em Dick o levaram à certa paranoia, mas é necessário termos precisão ao tratarmos da questão. A medicalização da vida que experimentamos hoje faz com que toda a experiência do pensamento que varia do comportamento padrão (seja lá o que isso for) deva, preferentemente, ser tratada quimicamente. Para o autor gnóstico Valentim (sec. II), a paranoia é um método para denunciar a realidade falsa (demiúrgica) e apreender a verdadeira (Pleroma). Philip Dick se considerava um escritor (e filósofo) gnóstico.

Nesse sentido, o que é o “Império”, ao qual Dick tratava? A frase pertence ao que o autor chama de Exegesis, uma miscelânea filosófica imensa e inacabada, cujos trechos surgem no romance VALIS. Na obra de PKD, o Império possui camadas. Uma mais tênue seria a de que o Império Romano nunca acabou e vivemos em uma ilusão onde o tempo supostamente passa, mas ainda estamos no sec. I. No entanto, o Império adquire estatura cósmica, gnóstica, teológica, cristã e ao mesmo tempo informacional ao longo de VALIS, Exegesis e na análise da sua biografia, como, por exemplo em alguma de suas cartas.

O que as reflexões de PKD podem nos suscitar? Vejamos em que hoje podemos apreender o que seja Império. É possível especular identificando o capitalismo ou um grupo que "controla" a economia global, se quisermos personificar o Império de PKD. Se essa identificação não é exatamente equivocada, podemos fornecer à questão um estatuto ontológico. Aqui, a filosofia da diferença de Gilles Deleuze nos será útil: o que entendemos enquanto Império é a crença forjada ao longo de séculos de que há uma separação real ontológica entre imanência e transcendência, o separatismo, dualismo. Essa ideia, que se traveste em sensação, experiência, está presente na História da humanidade desde os registros mais antigos. Podemos identificar raízes históricas e filosóficas mais contundentes no caso do Ocidente na Grécia Antiga, perpetuada pela Europa e hoje presente em quase todo o mundo. A partir dessa apreensão ontológica – transcendência e imanência – podemos identificar que outros dualismos ela gera: natureza e cultura, sujeito e objeto, corpo e mente, interior e exterior etc. Os dualismos se proliferam a partir do novo nexo (contexto, problema) do qual se parte. Uma primeira denúncia que precisamos fazer agora é a própria dualidade entre ontologia e epistemologia. A partir de agora, condizente com os transaberes, vamos nos ater ao que apreendemos enquanto epistemontologia, ou seja, a coexistência do devir e do pensar, ou seja: o intuir, em outras palavras, imanência do estudo com seu “objeto”, além da imanência dos tipos de estudo.

A característica excessivamente plástica do Império elencada por PKD, “quem quer
que derrote um segmento do Império se torna o Império”
, é melhor apreendida se aplicarmos o conceito de rizoma de Deleuze & Guattari. Os autores propuseram o rizoma como pontos que podem se conectar a qualquer outro, cujos encontros podem gerar uma densidade maior, o tubérculo. No rizoma, as estruturas são provisórias. Corta-se um ponto, logo esse se conecta a outro. Exemplos são abundantes: o cérebro entendido a partir da neuroplasticidade, a internet, as rotas aeroviárias etc. Com esse conceito, D&G querem criticar o pensamento estruturalista, a transcendência, a psicanálise, os microfascismos etc. É uma ferramenta conceitual esplêndida, que se presta a vários usos, no entanto, não há garantia no rizoma, não quer dizer que seu desdobramento vai ser necessariamente ético. É, sobretudo, uma tentativa de pensar sem modelos. Nesse sentido, podemos entender, por exemplo, o capitalismo à luz do rizoma. Corte uma cabeça aqui, nasce outra acolá. A hidra do capitalismo é muito mais poderosa que se pensava. Se Che Guevara é um ícone anti-capitalista, tanto melhor, vende-se camisas com a sua imagem, livros e filmes sobre ele etc. Se vegetais são o cardápio da “resistência”, abri-se vários Mundos Verdes, não sem antes oferecer saladas no McDonalds. As supostas crises do capitalismo nunca o abalara, apenas o equipava para os novos  tempos. Se, do ponto de vista social e econômico, podemos entender o capitalismo como o Império de PKD, já que toda a tentativa anti-capitalista se torna mercadoria de um jeito ou de outro, numa imanente epistemontologia, apreendemos todo o mundo fenomênico (ou atual,  numa linguagem bergsoniana, que envolve a multiplicidade quantitativa), como o Império. Na multiplicidade quantitativa, qualquer ação conduzirá a mais multiplicidades. O embate nunca cessará. Qualquer ação contra qualquer outra coisa vai gerar um resultado qualitativo, dentro da multiplicidade qualitativa, o que vai manter o embate.

Para entrarmos em uma multiplicidade qualitativa, é preciso algum processo meditativo. O quantitativo é claro: você tem a sua mesa, seu livro ou computador, seu corpo, a janela etc. Feche os olhos, “sinta” o lugar que você está. Não é possível contar os “objetos”, mas é possível apreender o conjunto do que se passa. Isso é a multiplicidade qualitativa, que, diferente da quantitativa, que é adjetivada, aqui se trata de substantivo: a multiplicidade. Porém, a imanência enquanto Unidade (ainda que coexista com a multiplicidade), seja algo mais profundo, íntimo aos sábios e experimentado por outros através de satoris, pequenos lampejos oriundos de alguns processos, como despertar de kundalini, insights, as experiência místicas de Plotino com o Unomeditações etc.

Esse exercício pode ser pouco e a racionalidade ocidental tende a parar por aí. Nesse sentido, cabe pedirmos auxílio aos sábios do Oriente, sobretudo do Advaita Vedanta, um campo de saber não dual sistematizado pelo mestre Shankara no sec. IX na Índia e divulgada com mais compreensão pelo Ocidente por Ramana (2012) no sec. XX. O "dual" seria mais devocional, entendendo de saída uma separação entre a Consciência e o "devoto".

Ramana propõe a autoinquirição baseado na pergunta “Quem sou Eu?”. O propósito da pergunta é conduzir o inquiridor para além da mente e se instalar na Consciência[2] (awareness, Pura Presença, Unidade, Silêncio etc). Se instalando na Consciência, que é um ponto sem dimensões de onde tudo vem, Ramana vai dizer que só a partir daí que a multiplicidade (no que entendemos como “quantitativa”) do mundo fenomênico ganha a propriedade da Unidade, do não dual. Enquanto mantivermos o foco de atenção na multiplicidade quantitativa, a passagem para a qualitativa nunca se dará de forma permanente. Claro está que somos, de um jeito ou de outro, a Consciência. O que acontece é um turvamento dessa realidade, através da mente, do Eu.

É nesse sentido que apreendemos o Império[3]. No aspecto epistemontológico da multiplicidade quantitativa, do Eu, em outras palavras: somente o Eu “vê” o Império. A Consciência “vê” a Unidade se desdobrando Nela mesma. Nesse campo, toda a tentativa de eliminar o Império o multiplicará. Através da autoinquirição, o Império deixa de existir, pois não há mais dualidade, parte, somos imanente à  qualquer coisa, não há nada o que se ir “contra”.

Esse condição de apreender a Consciência, ou, nos termos das tradições, atingir a iluminação, está disponível para todos. Existem incontáveis iluminados anônimos e diversos que escrevem, palestram etc. hoje em dia, inclusive no Ocidente: Mooji, Adyashanti, Eckhart Tolle etc. Se compararmos a Ética de Spinoza com as falas e escrituras desses sábios, veremos que Spinoza era um deles.

Então, a partir da Consciência, nada mais resta a fazer? Não haverá mais luta? Sim, haverá o que “fazer”, mas não haverá mais luta. A partir da Consciência brota-se naturalmente, espontaneamente, as ações. Mas aí não são mais guiadas pelas emoções (elas acontecem, mas passam e não são retidas e cultivadas), pela moral (o jogo dual de certo e errado, ou seja, Bem e Mal, se desfazem), nascendo uma ética natural baseada em compaixão e amor incondicional não-objetal, bem nos termos que Spinoza termina sua Ética: o terceiro gênero do conhecimento, a intuição, que gera o amor intelectual de Deus por si mesmo: potência, alegria e liberdade máximas.

A partir disso, as ações que surgem são norteadas por uma profunda e irretocável sinceridade. Pode ser que nisso, se perca o interesse por crianças pobres, refugiados, doenças, destruição da natureza etc., no sentido que tudo isso deixa de serem partes (infelizes ou não) do mundo, mas se torna Um, inclusive com quem se sensibilizava com essas dores. O que é da ordem da moral desaparece: aquele que quer parecer “virtuoso” ou heroico por fazer parte da Cruz Vermelha ou qualquer atitude que corresponda ao cultivo do Eu. Em outras palavras, atentas aos jogos da mente: nada mais bélico que um pacifista militante; além de que, é necessário seriedade e precisão para gargalhar cosmicamente. No entanto, se há um movimento de fato sincero, espontâneo, que brota da Consciência naturalmente, nesse sentido, há muito que devir, mas não “fazer”, no sentido racional do termo relacionado a um “fazedor”, assim como não é mais obrigação moral ou egoica, mas apenas uma dança das acontecências.

Assim, como diria PKD, o Império nunca é derrotado de fato, mas habitando a Consciência sem véus, o Império deixa de existir. Toda uma questão de foco: fica-se na multiplicidade quantitativa dos objetos do mundo ou na imanência da Consciência, em que nós fazemos parte do mundo? Só há  impasse de escolha na Consciência turva. Na apreensão direta da Consciência, a dança espontânea imanente, sem dualismos, irrompe.

Bibliografia
DICK, Philip K, A Invasão Divina, Melhoramentos, São Paulo, 1987.
___________ VALIS. 1 ed. São Paulo, Editora Aleph, 2007.
JOB, Nelson, Confluências entre magia, filosofia, ciência e arte: a Ontologia Onírica, 1 ed. Ed. Cassará, Rio de Janeiro, 2013.
INGOLD, Tim, Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos em um mundo de materiais in: thttp://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832012000100002&script=sci_arttext
PEAKE, Anthony, A Vida de Philip K. Dick – o homem que lembrava o futuro, Seoman, São Paulo, 2015.
RAMANA, Pérolas de Sabedoria, Ed. Teosófica, Brasília, 2012.





[1] Os Transaberes são o transdisciplinar aplicado nas práticas do dia-a-dia, ou seja, na vida. Vários dos temas aqui abordados estão desenvolvidos com o devido aprofundamento em meu livro “Ontologia Onírica” (JOB, 2013). Quando necessário extrapolá-lo, constará na bibliografia.
[2] Sendo que a “consciência” (consciousness) com “c” minúsculo é o que o Eu percebe cognitivamente.
[3] Philip K. Dick (1987) cita tanto Spinoza como os orientais em sua obra. A influência é evidente: “O Criador não antecede no tempo o universo; ele não existe no tempo, simplesmente. Deus cria o universo constantemente, está com o universo , não acima ou junto dele.”